No mercado, na relação com clientes e na visão de muitos profissionais, o paisagismo, é percebido como uma espécie de planejamento especializado de jardins, focando-se na estética e na combinação de plantas como elementos ornamentais. Essa perspectiva, embora popular, obscurece o verdadeiro potencial do paisagismo como uma forma de arquitetura que molda a experiência humana e conecta as pessoas com os espaços, com a natureza e a cultura. Mas, afinal, qual é o papel das plantas nesse contexto expandido?
Paisagismo como Arquitetura dos Espaços Vazios
Para compreendermos o papel das plantas no paisagismo, é crucial deslocarmos nosso olhar da visão jardinística tradicional para uma abordagem espaçoceptiva, que considera o paisagismo como a arte de projetar espaços vazios habitáveis. Assim como a arquitetura não se resume à construção de paredes, o paisagismo não se limita à seleção e disposição de plantas. Ambos são projetos de vazios, de ocos dotados de significado, que interferem e conduzem a experiência humana e a forma como reconhecemos e interagimos com o ambiente.
Nessa abordagem, as plantas deixam de ser percebidas como elementos decorativos e se tornam elementos construtivos, como pisos, tetos e paredes que, tal qual na arquitetura, estruturam espaços. Elas delimitam, ordenam e interrelacionam os espaços, que são percebidos pelas pessoas, criando emoções e sensações – e modificando comportamentos.
Ao invés de simplesmente dispor decorativamente plantas em um espaço livre, o paisagista as utiliza para ordenar o próprio espaço – para construir e definir identidades , sensações e formas de interação.
A Inversão do Olhar: Do Cheio ao Vazio
Na prática, essa mudança de perspectiva representa uma inversão do olhar, que se aproxima a uma visão arquitetônica do projeto, estruturada a partir dos vazios. O foco não está em projetar paredes, mas em projetar espaços ocos, que atendem a determinadas finalidades e que evocam sensações específicas. As paredes, nesse contexto, são apenas um meio de estruturar e configurar esses ocos, de criar uma sucessão de espaços interrelacionados.
Da mesma forma, no paisagismo, o projeto é estruturado a partir dos vazios e de suas qualidades. As plantas são as paredes, os tetos e os pisos que conformam os espaços vazios. O paisagista não projeta plantas, mas sim o vazio que é delimitado por elas. Essa inversão do olhar é fundamental para compreendermos o verdadeiro potencial do paisagismo como uma forma de arquitetura que transforma a experiência humana.
Jardinagem e Paisagismo: Uma Relação Complementar
Essa diferença de abordagem é uma das formas de distinguir paisagismo de jardinagem. Paisagismo se ocupa dos vazios, da experiência humana, da percepção e da identidade. Jardinagem se organiza ao redor das plantas, de suas características ornamentais e de seu cultivo em jardins.
Mas isso não significa que paisagismo seja o oposto da jardinagem, mas sim uma abordagem mais abrangente que a engloba. A jardinagem, e todo o conhecimento que vem atrelado a ela, pode ser vista como uma ferramenta dentro do paisagismo. Ao projetar um espaço, o paisagista define os ocos, as paredes e os tetos que serão construídos com plantas, e então escolhe as plantas que melhor se adequam a essa finalidade, levando em consideração suas qualidades estéticas e funcionais.
O Paisagismo Espaçoceptivo: Uma Abordagem Transformadora
O paisagismo espaçoceptivo, representa uma evolução dessa visão, ao conduzir o planejamento dos espaços com foco na experiência das pessoas, a partir da visão do paisagismo como projeto de vazios habitáveis. Essa abordagem enfatiza a compreensão da forma como os indivíduos percebem e interpretam os espaços, buscando criar ambientes que proporcionem uma experiência sensorial intencional, rica e significativa.
Ao invés de se concentrar na ornamentação ou na estética das plantas, o paisagismo espaçoceptivo busca controlar a comunicação simbólica, melhorar o bem-estar e a conexão dos indivíduos com o espaço. Ele reconhece que o poder de transformação reside na capacidade de mudar a forma como as pessoas percebem a realidade, conduzindo seu olhar e suas sensações.
Para profissionais da arquitetura ou do paisagismo, a abordagem espaçoceptiva oferece um conjunto de ideias novas e bem construídas, que promovem uma atuação baseada na gestão da percepção espacial e da experiência humana.