Sobre lotes e paisagens – o paisagismo consciente

Frequentemente, quando se faz uma intervenção sobre um lote, que é um fragmento do tecido urbano, pode haver a impressão de que o projeto está limitado às linhas que definem o próprio lote. Como se nossas responsabilidades e preocupações estivessem restritas apenas àquele retângulo…

O paisagismo tem como missão e responsabilidade a intervenção consciente sobre a paisagem. Portanto nosso compromisso não é somente com o que ocorre dentro dos limites do lote, mas com o papel que nossa intervenção terá na construção da paisagem.

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A paisagem é tudo o que vemos e, principalmente, como vemos. Para que exista, é preciso que haja um observador que a interprete. Ela existe a partir do nosso olhar e é uma construção coletiva e em constante evolução. Tudo o que construímos (e plantamos) a modifica e reconstrói, ao mesmo tempo que é afetado por ela.

É o conjunto dessas intervenções ao longo da história que dão à paisagem uma identidade única que a torna reconhecível, um lugar. Somam-se às estruturas naturais os resultados de nossas ações, que em conjunto ganham uma nova definição e significado. São as características da paisagem que nos fazem compreender imediatamente se estamos em Belém, em Brasília ou em Salvador.

A paisagem não pertence a um indivíduo, é um patrimônio coletivo, e o lote sobre o qual faremos nossa intervenção é apenas um dos fragmentos que a compõem. Quando criamos um projeto para esse lote, estamos também contribuindo para a alteração da própria paisagem, que está fora dos limites da área de intervenção, mas não fora de nossa responsabilidade.

A responsabilidade sobre a paisagem

No processo de intervenção em um espaço, é fundamental analisar o quanto o seu projeto pode influenciar na construção ou alteração da sua identidade. Ao desenvolver uma proposta de alteração de uma paisagem, é importantíssimo se questionar: Que lugar é esse? O que essa paisagem significa?? Quais são seus valores? Qual a sua identidade? De que forma posso colaborar na sua construção? Quais ações são nocivas à sua percepção? É preciso ter consciência sobre a maneira com a minha ação, quando somada a ações semelhantes, vai contribuir para a valorização dos atributos e da identidade do lugar – no sentido mais amplo – onde me insiro.

Meu lote se somará a centenas de outros pequenos lotes na construção de uma única paisagem: qual a paisagem que quero construir? Qual paisagem me cabe construir?

Saiba mais – Paisagismo e Jardinagem: qual a diferença?

É a partir da habilidade na leitura da paisagem que se definem as melhores soluções para um projeto. Compreender seus componentes –  eixos visuais, proporções, volumes, significados, percepções simbólicas e afetivas – é fator determinante para obter capacidade propositiva criativa e respeitosa, mesmo em pequenas áreas.

O paisagismo não se limita, portanto, ao ajardinamento das áreas não edificadas de um lote. Embora se valha das plantas na sua estruturação, tem compromissos diferentes da jardinagem, mais amplos e mais ricos. Se considerados no processo de projeto de jardins, levam a resultados mais relevantes e criativos. E o mais interessante é que esses compromissos também afetam a própria concepção da arquitetura. Uma arquitetura mais responsável é a que entende seu papel na paisagem!

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