Fazer arquitetura é fazer paisagismo!

É curioso notar que no mercado profissional o paisagismo é quase sempre visto como um complemento de caráter ornamental da arquitetura. Caberia ao paisagismo apenas ornamentar com vegetação os espaços remanescentes da arquitetura, aqueles que a edificação não ocupou, de forma quase cenográfica. Nesse cenário, a relação do paisagismo com a arquitetura não é muito mais que observar a linguagem da edificação, seu “estilo”, e propor uma composição de canteiros que seja coerente e respeitosa com a proposta da arquitetura, submetendo-se a ela.

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Sob esse ponto de vista, o conhecimento do paisagismo só seria relevante ao arquiteto se ele tivesse interesse em oferecer um serviço adicional ao seu cliente: a especificação de plantas do jardim. Não havendo interesse na oferta desse serviço, não haveria razão para empenhar-se na compreensão do assunto, uma vez que a concepção do paisagismo seria uma etapa posterior e apenas complementar à arquitetura, não interferindo na sua proposição original.

Mas há outra forma de compreender as relações do paisagismo com a arquitetura, a partir do momento em que se compreende seu papel e sua dimensão. De forma simplificada, há dois grandes temas centrais que são seus objetos de estudo: o planejamento da intervenção na paisagem e o planejamento dos espaços livres de edificação. Não é a presença de vegetação (ainda que ela seja importante, frequente, e traga muitos benefícios urbanos) que determina se o projeto em questão é ou não paisagismo.

O que isso quer dizer para os arquitetos? Quando um arquiteto projeta uma edificação, o objeto arquitetônico resultante é uma intervenção na paisagem. A arquitetura é um dos componentes da paisagem e, portanto, sempre que um arquiteto ergue uma edificação ele não está fazendo apenas arquitetura – está fazendo também paisagismo, mesmo sem saber. O entendimento dos conceitos fundamentais do paisagismo fará que essa intervenção paisagística, que frequentemente é acidental, passe a ser consciente, projetada e intencional. Beneficiam-se com isso a paisagem e a arquitetura.

A arquitetura como estrutura paisagística

Ao mesmo tempo, ao projetar uma edificação, e portanto definir quais serão os espaços edificados, o arquiteto necessariamente está determinando quais serão os espaços não edificados do lote. Está definindo sua forma, sua articulação funcional, sua relação com o edifício e com a rua. Está “projetando”, um sistema de espaços não edificados, que muitas vezes são o “resto”, o que sobrou do terreno após a implantação da edificação. Novamente a ação do arquiteto está dentro da área de conhecimento do paisagismo que, se levado em conta, poderia gerar intervenções mais conscientes e benéficas.

O paisagismo não é, portanto, uma preocupação posterior, cuja ligação com a arquitetura é apenas estética. Fazer arquitetura é, necessariamente, fazer paisagismo. É intervir na paisagem e estruturar os espaços não edificados de cada lote. Saber paisagismo, para o arquiteto, não é saber escolher plantas ornamentais para embelezar a fachada. É conceber a arquitetura compreendendo suas relações com a paisagem e com os espaços não edificados.

É fundamental o conhecimento do paisagismo pelos profissionais de arquitetura. Isso porque, embora possa parecer contraditório à primeira vista ou à luz das práticas do mercado, saber paisagismo não é conhecer plantas  ornamentais ou saber como combiná-las. É fundamentalmente compreender a estrutura dos espaços não edificados, suas articulações com as edificações e as relações destas com a paisagem.

Tudo muda a partir desse ponto de vista. Ao compreender que paisagismo não é um complemento da arquitetura, mas a arquitetura é em si uma intervenção paisagística, a abordagem do projeto arquitetônico desde seu princípio passa a ser diferente. O paisagismo se apresenta como um dos condutores da concepção inicial do projeto arquitetônico, e não como um complemento ornamental. E isso faz a arquitetura melhor.

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